
A peça Mara em um quarto reflete o anti-convencionalismo da linguagem teatral. E, diga-se de passagem, é uma obra com imensa diversificação de linguagens artísticas. Mesmo o espectador mais habituado com peças teatrais se vê diante do novo, do inédito, do inusitado. A montagem dialoga com o cinema surrealista, a arte conceitual performática e a música indie contemporânea.
É necessário, portanto, possuir um repertório artístico para identificar no espetáculo suas mais detalhadas referências culturais. Em primeiro lugar, a peça é exibida numa sala de exposição do Espaço Cultural Sylvio Monteiro, ao invés de ser encenada no teatro do Espaço. A tal sala foi transformada em quarto e, no momento em que se abre para o público, a diretora anuncia "Senhoras e senhores, boa noite. Sejam bem-vindos ao quarto de Mara. Este espetáculo não é recomendado para quem sofre de claustrofobia. É expressamente proibido abrir a porta e sair antes do fim do espetáculo".
O quarto de Mara é, na verdade, uma instalação de arte conceitual com inúmeras referências vanguardistas. A disposição de copos pelo chão pode ser vista como uma releitura dos terços eróticos de Márcia X (obra que foi censurada pelo CCBB na exposição Erótica, a pedido da Igreja Católica), a cama nos remete a instalações de Laura Lima (a peruca de Mara e até mesmo um repolho colocado no chão cumprem este papel) e a própria desconstrução da direção de arte, com copos e papel higiênico marcando o território cênico, vai lembrar o cenário do filme Dogville, do cineasta dinamarquês Lars Von Trier. Não só por isso, o fato do espectador estar DENTRO do cenário o torna mais íntimo da protagonista.
As referências ao cinema não param por aí. O terror de cineastas como Roman Polanski (O bebê de Rosemary), Alejandro Amenábar (Os outros) e da série de filmes Poltergeist está presente na construção cênica. Tudo isso é reforçado por uma trilha sonora com vozes fantasmagóricas (com as quais Mara dialoga) e possantes ventiladores que fazem o cenário voar em cima do público. A trilha, experimentalista ao extremo, também têm suas referências nos trabalhos vanguardistas de Laurie Anderson e da islandesa Björk (em seu lado mais delicado e sombrio). O surrealismo e o tema central do filme O anjo exterminador, de Luis Buñuel, também integram o espetáculo.
O texto de Victor Paes (poeta e fundador da editora Confraria do Vento) é poético e reflete o paradoxo da vida. Por que deixamos de fazer o que temos vontade? Medo? Culpa? O que dizer de Mara, então? Ela é a síntese dos problemas humanos femininos da nossa era, explorados através de uma introspecção psicológica típica de uma obra de Clarice Lispector, Sylvia Plath ou Virginia Woolf. Depressão, síndrome do pânico, luminofobia (causada por tétano, fato que a personagem informa), culpa (por ter sofrido aborto espontâneo, também devido ao tétano) e, logicamente, uma esquizofrenia gerada por transtorno bipolar. Se já não é fácil SER Mara, difícil também foi INTERPRETAR Mara, tarefa que coube à atriz Flavia Carrancho.
A diretora Lene Werneck costuma trabalhar em suas produções dois conceitos: a construção da personagem através do incentivo à pesquisa do ator e os fundamentos do Teatro da Crueldade (de Antonin Artaud). Sua direção amadureceu muito desde a direção de Xeque-Mate, peça na qual ela popularizou esses conceitos.
A atriz, com a leitura do texto, passou a questionar as falas de Mara, tendo inclusive recorrido a psicanalistas, se consultando com as dúvidas e anseios de sua personagem, para obter uma interpretação fiel ao texto. A trança de sua peruca é uma nítida referência à Rapunzel dos Irmãos Grimm e reforça a idéia de seu enclausuramento.
O resultado final, com certeza, é a reflexão do público a respeito do que viu e viveu ali dentro. Será que Mara consegue se libertar? Será que o espectador se liberta? E também, provavelmente, mesmo o espectador leigo, poderá a partir daí refletir sobre os padrões estéticos da arte e suas concepções.
ONDE ASSISTIR:
Espaço Cultural Sylvio Monteiro
Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - Nova Iguaçu/RJ
Sexta e Sábado às 20h e Domingos às 18h
Até 27 de abril de 2008
FICHA TÉCNICA
Concepção, direção e produção: Lene Werneck
Texto: Victor Paes
Elenco: Flavia Carrancho
Iluminação: Fernanda Mantovani
Montagem de luz: Paulo Assumpção:
Trilha Sonora: Márcio-André
Assessoria de pesquisa psicológica: Drª Andréa Lucena
Confecção da camisola de Mara e da roupa de cama: Diu
Confecção do cabelo de Mara: Lene Werneck
Arte em madeira: Wilson Rodrigues de Freitas
Arte em pinturas: In^z Corrêa e Dilza Pamato
Caracterização: Glauber Brilhante
Designer gráfico: Juan Aguirre Muñoz (Chile)
Assessoria vocal: Drª Célia Domingues da Silva e Drª Alessandra Gomes dos Santos
Assistência de produção: Marlene Souza e Roberto Costa
Assessoria de imprensa: Virgínia Fialho
Uma produção W Ateliê Cênico
